ÚLTIMA SEMANA: pixo ocupa galeria em SP – e isso é arte?

Ele fez seu movimento ganhar forma na história. Aos 17 anos escreveu uma carta para o governador de São Paulo argumentando por que o pixo era arte.

Em 1992 pixou seu nome no prédio da Bienal e no Conjunto Nacional, ligando ele mesmo para polícia como um morador não identificado e indignado, contando sobre a tinta que queria que respingasse também nas páginas do jornais. E é por essas outras que #DI# ganha uma exposição em São Paulo.

Edmilson Marcena era motoboy, morava em Osasco e não tinha nenhum repertório sobre a história da arte. Mas o que ele fazia ganhava dimensão na metrópole, no topo dos prédios abandonados, onde aquilo que nada podia tirar dele ficaria eternizado sob as paredes em que ninguém se preocuparia em passar tinta em cima: o seu nome, a sua marca #DI#.

Apesar da exposição “Pichar é Humano” ter a grafia com “ch”, o movimento ficou marcado com o “x” mesmo, representando a rapidez e agilidade que deve ter o pixador, bem como a capacidade de associar signos e palavras com um número reduzido de caracteres (ch=x) há cerca de 30 anos, ou seja, antes da internet fazer parte das nossas vidas. Tipo o que fez a poesia concreta. Afinal, quando se está pendurado no topo de um prédio de mais de 20 andares, sem segurança, qualquer tempo a mais é valioso.

Em cartaz na Galeria A7MA, na Vila Madalena, a mostra reúne uma série de fotografias que mostram a ousadia e as letras retas que começaram a se espalhar pela cidade. Bem como a carta, citada no início do texto, e as manchetes que tomaram as páginas dos jornais – que não corresponderam com as do garoto – que aos 22 anos morreu baleado na porta da escola. “Ele tinha vindo receber a resposta se poderia retomar os estudos. Era um bom menino”, conta o diretor do colégio em um dos jornais.

O convite de uma festa de pixadores indicando “os buso” e as regras de convivência, bem como um pouco do Di, sua casa e seu trabalho.

Há quase 20 anos do incidente, muita coisa continua a mesma. “O DI morreu por nada. Entrou em um banheiro que não tinha sexo – e também não era cool por conta disso -, cruzou com uma mulher, o namorado achou ruim e depois encomendou o assassinato dele. É a banalização da morte. E já diria Mano Brown: ‘periferia é periferia em qualquer lugar do mundo’. Não tem perspectiva”, conta o curador Sérgio Franco.

“O que condensa melhor o nosso tempo? São as manifestações públicas no espaço público. A rua tirou um presidente, congelou a tarifa de ônibus. E quem tem estratégia pra ocupar o espaço público? O pixo”. Sérgio Franco.

É a partir desse cenário que a gente começa a enxergar melhor as coisas. Sem a tal da perspectiva – ignorada por aqueles que defendem a meritocracia, esses meninos do pixo encontram um jeito de fazer parte da metrópole da qual constantemente são excluídos. E é durante a correria da luz do dia em que eles percorrem a cidade e enxergam como podem fazer parte dela e assim ocuparem o espaço público. E o Sérgio da a letra: “Eles combinam uns 60 pixos por rolê. Rolê que de São Paulo já se espalhou para o Rio, BH, João Pessoa, Salvador…”.

Diante do contexto em que algo que deveria ser público e entra dentro de uma galeria, Sérgio explica que o objetivo da mostra é reunir esses amigos do DI e também poder contextualizar a importância do seu nome no pixo e assim ressignificar algo que é, em esmagadora maioria, condenado pela sociedade.

Entre uma camiseta vendida a R$ 100 e a justificativa de que algumas das fotos exibidas também estão à venda, ele admite que realmente esse não é o objetivo. “Ninguém entra aqui querendo comprar alguma coisa. As pessoas vêm para deixar seu nome, seja no caderno, seja na maquete do prédio ou até para conhecer os seus ídolos, ou uma história. A venda desses produtos é revertida para a família do DI e como estudioso da área, eu posso afirmar que esse é um investimento que um dia ainda vai valer muito dinheiro!”.

Mestre pela FAU e doutorando em sociologia pela USP, Sérgio faz do pixo mais que uma paixão. Ele estuda e busca consolidar o seu lugar na história da arte. Como co-curador da Bienal de Berlim de 2012, ele foi protagonista de um dos episódios mais relevantes dessa história: o dia em que o curador da mesma quis trazer o pixo como arte fora da tela e perdeu a linha quando os meninos não se contentaram com o espaço delimitado, subiram as paredes e pixaram uma recém-restaurada igreja tombada.

Mas e aí, o pixo é arte?

“Se você leva em conta o debate contemporâneo do que á arte, sim. Ele é”, afirma Sérgio. E para enxergar ainda melhor esse debate, recorremos aquele famosos “passado para entender o presente”. Como exemplo, Manet já dizia: a academia é igual a um campo de batalha. Ao rejeitarem o seu movimento, o Salão dos Recusados marcou os livros da história da arte com o trabalho de todos aqueles que foram negados pelo senso comum da época.

Serviço:

Exposição Pichar é Humano – A7MA Galeria

Rua Harmonia ,95B, Vila Madalena – São Paulo

Segunda a Sábado, das 11 às 20hs

Entrada gratuita

Até 29 de agosto

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