MICHELLE E OBAMA

Data de lançamento 8 de dezembro de 2016 (1h 23min)
Direção: Richard Tanne
Elenco: Parker Sawyers, Tika Sumpter, Deanna Reed Foster mais
Gêneros: Romance, Biografia
Nacionalidade: Eua

SINOPSE E DETALHES
Não recomendado para menores de 12 anos

1989. Barack Obama (Parker Sawyers), calouro da faculdade de Direito de Harvard, arruma um emprego temporário em um escritório de Chicago. Lá, fica sob as ordens da jovem advogada Michelle Robinson (Tika Sumpter), por quem se apaixona. Certo dia, a advogada finalmente aceita o convite do estagiário para sair e os dois visitam um museu, fazem uma longa caminhada e terminam o dia de verão assistindo ao filme Faça a Coisa Certa, de Spike Lee.

Crítica

Casal mais poderoso do mundo até janeiro, quando Donald Trump assume a presidência dos Estados Unidos da América, os Obamas são os Kennedys do nosso tempo, tanto em termos de carisma quanto de exposição midiática. Entretanto, enquanto o relacionamento do casal 20 do início da década de 1960 era manchado por puladas de cerca nada discretas do Mr. President, a história de Michelle e Barack é tão bela e aparentemente perfeita que foi capaz de gerar um longa romântico. Michelle e Obama narra com graça o nascer do amor entre os dois advogados e acerta principalmente por fazer questão de destacar que eles não formam apenas um par modelo e sim um par negro modelo. A questão racial, muito importante nas vitórias políticas de Barack Hussein, é fundamental no longa de Richard Tanne desde os diálogos iniciais até o fim dos ensolarados quase 90 minutos de trama, o que dá à obra uma valor muito maior do que o de mero documento de eternização em forma de arte do pioneiro chefe de Estado.

Michelle (Tessa Thompson), aqui Meesh, se recusa a encarar o passeio ao lado do jovem estagiário Barack (Parker Sawyers) como encontro romântico por medo de perder tudo o que conquistou arduamente na empresa em que trabalha. Em desvantagem dupla por ser mulher e negra, a advogada que fala francês e cresceu vendo programas televisivos “de brancos”, mas também é capaz de sair dançando como se não houvesse amanhã ao ouvir um tambor, teme ser julgada por sair com o único colega de trabalho afro-americano. Filho de uma estadunidense com um queniano, Bar, por sua vez, enfrenta seus dilemas por ser mestiço e tem um histórico de relacionamentos amorosos predominantemente interraciais – o que é explorado em outro longa sobre a juventude do político, Barry. Tendo como “apostilas” a arte visual de Ernie Barnes, a música de Stevie Wonder, a poesia de Gwendolyn Brooks e o cinema de Spike Lee, eles trocam confidências, ensinamentos, farpas e compreendem a responsabilidade e o poder que têm – à parte as confusões e incertezas típicas da idade.

Apesar do rico reforço cultural, o “bate-bola” de perguntas e respostas que movimenta a narrativa e apresenta os personagens num primeiro momento soa duro, sem a fluência das conversas de Antes do Amanhecer, por exemplo, óbvia fonte de inspiração da produção. Estamos em 1989 e o característico estilo do cinema da época dá o tom das sequências iniciais na trilha sonora, nos créditos e na recriação de alguns planos clássicos. A abertura promete diversão, mas o roteiro prefere o drama à comédia e apenas discretos sorrisos de encantamento saem com facilidade no decorrer da história, afinal não há como resistir ao charme afiado do jovem Obama.

“Copiado” de maneira impressionante por Parker Sawyers, o futuro presidente dos Estados Unidos é apresentado como o carisma em pessoa, rei da persuasão e muito esperto, o que ocasionalmente o faz arrogante. A relação complicada com o pai surge inserida de maneira simplificada, como cota “nem tudo são flores”, pois o personagem marca mesmo é exibindo seu talento principal: a oratória. Num discurso nota dez, Obama vai da motivação comunitária ao mea-culpa direcionado exclusivamente para a amada, dedicando espaço ainda para uma frase de efeito prima do yes, we can – “eles dizem não, nós dizemos continuar em ação” – e uma defesa apaixonada do criticado primeiro prefeito negro de Chicago, Harold Washington, em que coloca a burocracia do país no papel de grande vilã. A fala, aliás, se encaixa perfeitamente – e nada sutilmente – como uma justificativa do próprio governo Obama, hoje classificado como decepcionante.

Também produtora do filme, Tessa Thompson não tem a vantagem da semelhança física com a retratada e demora um pouco a convencer, mas no fim das contas evoca com classe a primeira-dama que conhecemos e com habilidade impede que as implicâncias da personagem descambem para a chatice ou gerem antipatia.

Feliz na opção pelo discurso de valorização da raça negra e na própria escolha do recorte temporal, o estreante Richard Tanne peca na fotografia pelo uso excessivo da profundidade de campo reduzida, o que basicamente deixa apenas Michelle e Obama em foco durante boa parte do filme, destacados literalmente. Essa opção radical, além de cansativa para os olhos, é redundante e só serve para causar estranhamento. Ignorado este detalhe e esquecidas algumas situações forçadas, Michelle e Obama revela-se um surpreendente acerto político recheado de discussões raciais e embebido em romance, capaz de alimentar corações e mentes (democratas).

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