CURUMIM

Data de lançamento 3 de novembro de 2016 (1h 40min)
Direção: Marcos Prado
Elenco: atores desconhecidos
Gênero: Documentário
Nacionalidade: Brasil

SINOPSE E DETALHES

Os últimos dias e as últimas horas de Marco Archer, mais conhecido nas comunidades do surfe e da asa-delta pela alcunha de “Curumim”, o primeiro brasileiro a ser condenado à pena de morte por tráfico de drogas, após ser capturado pela polícia tailandesa em uma ilha nos arredores de Bali, um território indonésio localizado no Oceano Índico.

Crítica

Em janeiro de 2015, a mídia repercutiu a notícia de um raro brasileiro executado após receber a pena de morte por tráfico de drogas. Marco Archer, o Curumim, não estava no Brasil, onde esta penalidade não existe, e sim na Indonésia, onde tentou entrar com 13,4kg de cocaína escondidos em uma asa-delta. Durante os onze anos de permanência numa prisão de segurança máxima na Ásia, entrou em contato com o diretor Marcos Prado e pediu que fizesse um filme sobre ele. Curumim ofereceu muitas horas de vídeo que ele mesmo gravou, no cárcere.

O retrato dessa história poderia ser moralmente e cinematograficamente tendencioso, por tocar em temas tabus como a pena de morte, os direitos humanos e o tráfico de drogas. Mas o cineasta, felizmente, toma algumas precauções essenciais. A primeira delas é eliminar, logo no início do documentário, a dúvida se o personagem deveria estar na prisão ou não, com esta pena ou não. Marco Archer abre a história assumindo que, de fato, entrou no país com a droga e foi preso após se refugiar no país. Ponto final. O que interessa ao filme não são as circunstâncias da prisão, mas o que vem antes e depois dela, ou seja, a trajetória do garoto rico, e sua vida no presídio.

Outra precaução encontra-se em equilibrar o discurso emitido pelo próprio condenado à morte. Nas imagens gravadas por Archer, é normal que valorizasse a sua versão dos fatos, que se transformasse em vítima ou mártir. Mas Curumim atenua o partidarismo do discurso: quando o protagonista afirma estar injustamente encarcerado com “bandidos perigosíssimos”, a montagem relembra que ele está ao lado de muitas pessoas com penas e crimes semelhantes aos seus. Quando faz graça, imitando Michael Jackson para demonstrar sua tranquilidade apesar da sentença, o filme oferece depoimentos de colegas de cárcere e cartas pessoais, lembrando que ele era uma pessoa triste, com possíveis distúrbios psicológicos.

O maior mérito deste projeto é não oferecer um ponto de vista único sobre o retratado. Vemos um homem ora sério e bem articulado, ora instável e eufórico, um sujeito que conseguiu ao mesmo tempo ser um “filho de família rica do Rio de Janeiro”, sem nunca ter um emprego fixo, e um traficante experiente na Europa e nos Estados Unidos, uma figura às vezes narcisista e manipuladora, às vezes solitária e desprovida de cuidados em relação à sua imagem. Todas essas vertentes coabitam no complexo retrato traçado por Marcos Prado, e costurado por uma montagem capaz de transmitir humanismo sem condescendência.

Apoiando-se em farto material de arquivo, e transparecendo uma excelente pesquisa de campo, Curumim faz questão de evidenciar sua opinião política. O filme não julga Marco Archer, positiva ou negativamente, mas mostra-se contrário à pena de morte, equiparada à prática da tortura, e denuncia com provas e relatos a corrupção no sistema carcerário da Indonésia, comparado ao brasileiro. O que está em julgamento, para o documentário, não é uma pessoa, e sim o sistema em que ela se insere.

É sintomático que a família do protagonista não esteja presente em imagens, ao mesmo tempo que amigos entrevistados buscam compreender porque ele teria cometido um crime tão arriscado. Mas o diretor nunca faz essas perguntas: pouco importa por que ele se envolveu no crime, quantos anos de pena mereceria. O filme se foca em questões mais importantes, como a pressão psicológica sobre um homem preso durante onze anos, sabendo que será fuzilado a qualquer momento. Deixem os dados para os tribunais e noticiários: o que importa à arte é o ser humano.

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