ATRAVÉS DA SOMBRA

Data de lançamento 10 de novembro de 2016 (1h 40min)
Direção: Walter Lima Jr.
Elenco: Virginia Cavendish, Domingos Montagner, Ana Lucia Torre mais
Gênero: Suspense
Nacionalidade: Brasil

SINOPSE E DETALHES

A tímida Laura (Virginia Cavendish) é contratada por um homem rico para cuidar de seus dois sobrinhos órfãos, que moram numa fazenda de plantação de café. Apesar de não se dar muito bem com o campo, ela aceita a tarefa, e logo estabelece uma amizade com a pequena Elisa (Mel Maia), enquanto seu irmão é enviado a um internato, por razões desconhecidas. Aos poucos, com a presença dos escravos e da governanta Geraldina (Ana Lúcia Torre), Laura tem a impressão de que alguns segredos são escondidos naquela casa. Ela acredita inclusive ver algumas pessoas que ninguém mais vê…

Crítica

A novela “A Volta do Parafuso”, de Henry James, se tornou um clássico da literatura mundial pela construção ao mesmo tempo simples e claustrofóbica da trama: quando uma jovem professora é contratada para cuidar de duas crianças órfãs, num casarão isolado, ela começa a perceber a presença de pessoas que ninguém mais vê. Será que as crianças enxergam o homem misterioso? Por que o tio das crianças se recusa a receber notícias sobre elas? O que a governanta da casa tem a esconder? Até as últimas páginas, o espectador alimenta dúvidas sobre a saúde mental da protagonista e sobre a realidade de sua percepção.

A adaptação brasileira, roteirizada e dirigida por Walter Lima Jr., muda sensivelmente esta estrutura. É normal que elementos narrativos sejam adicionados, suprimidos ou modificados, mas o cineasta altera a essência do texto literário: a ambiguidade, a construção do suspense. Aqui, sabe-se desde o início que as aparições são reais, óbvias, evidentes. Não existem ilusões: o espectador fica do lado da professora Laura (Virginia Cavendish) por saber que ela está certa, contra todos ao redor. Ganha-se em identificação com o espectador, perde-se em construção da psicologia dos personagens.

Aliás, é surpreendente como os elementos de Através da Sombra são claros, quase didáticos. A direção de arte é limpinha demais, com seus cômodos impecavelmente arrumados, as roupas passadas como para uma constante missa de domingo. A direção de fotografia também é luminosa, nítida, contrastada, no modelo das telenovelas. Em outras palavras, a imagem do filme não possui ambiguidade, elementos dissonantes ou perturbadores: o universo “de época”, referente ao período da escravatura no Brasil, possui a atmosfera asséptica de um museu de cera.

A transparência da imagem se aplica igualmente aos personagens: por mais que Virginia Cavendish se esforce, Laura não apresenta uma evolução tão forte, enquanto os mistérios envolvendo a aparição fantasmagórica e a postura ausente do tio e da governante são ou revelados de maneira fácil demais (no caso das aparições) ou praticamente ignoradas pela história (no caso destes dois personagens). Walter Lima Jr. adiciona elementos de tensão sexual, o que poderia ser bastante enriquecedor neste universo. No entanto, o desenvolvimento dos fetiches e pulsões está longe de ser satisfatório.

Através da Sombra representa, em si, um projeto ousado: não é nada fácil transportar as palavras de Henry James para a realidade brasileira, acrescentando o subtexto da escravatura e da repressão sexual feminina. Do mesmo modo, é sempre louvável que o cinema brasileiro invista em suspenses e adaptações literárias. Infelizmente, o resultado decepciona por querer agradar demais, tornando o material demasiadamente fácil ao espectador. Além disso, constitui uma forma de cinema antiquada, desconectada ao mesmo tempo da linguagem cinematográfica atual e da realidade histórica brasileira.

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