A CRIADA

Data de lançamento 12 de janeiro de 2017 (2h 25min)
Direção: Park Chan-Wook
Elenco: Kim Min-Hee, Kim Tae-Ri, Ha Jung-Woo mais
Gêneros: Drama, Romance, Suspense
Nacionalidade: Coréia do sul

SINOPSE E DETALHES

Coreia do Sul, anos 1930. Durante a ocupação japonesa, a jovem Sookee (Kim Tae-ri) é contratada para trabalhar para uma herdeira nipônica, Hideko (Kim Min-Hee), que leva uma vida isolada ao lado do tio autoritário. Só que Sookee guarda um segredo: ela e um vigarista planejam desposar a herdeira, roubar sua fortuna e trancafiá-la em um sanatório. Tudo corre bem com o plano, até que Sookee aos poucos começa a compreender as motivações de Hideko.

Crítica

O início deste filme exige atenção: em poucos minutos, são apresentados vários personagens, com passados distintos e motivações diferentes, transitando entre o Japão e a Coreia. É importante saber de onde vêm e para onde vão, e especialmente qual língua falam em cada momento – o japonês foi grafado em legendas amarelas, e o coreano, em legendas brancas. Um plano diabólico para seduzir uma mulher rica e ingênua serve como motor inicial para The Handmaiden, suspense erótico sobre trapaceiros no qual o maior enganado é o espectador.

Esteticamente, a produção é deslumbrante. Park Chan-wook continua sendo um exímio criador de mundos paralelos, deslocados do real, com amplos movimentos de câmera usados para reforçar o teor gótico. Combinando adereços, trilha sonora de tons repetidos à la Philip Glass e movimentações sedutoras pelos corredores, o cineasta consegue sugerir erotismo e perigo independentemente do conteúdo em cena. Sua maneira de sobrevoar o telhado da casa durante uma fuga, ou fazer a câmera pular a cama onde duas amantes fazem sexo é singular, ousada, diferente de tudo que o cinema já fez.
A trama, no entanto, possui um funcionamento inédito em sua filmografia. Até então, o cineasta coreano efetuava suas coreografias imagéticas e estéticas em cumplicidade com o público: em Oldboy (2003), o espectador possuía as mesmas informações que o protagonista e acompanhava sua busca pela verdade; em Sede de Sangue (2009), a cena perversa da mãe no corredor era oferecida primeiro ao espectador, e depois aos demais personagens; em Segredos de Sangue (2012), o público acompanhava de modo onisciente as decisões controversas dos membros de uma família. Mas em The Handmaiden, o espectador é o último a entender o que está acontecendo. Os personagens estão sempre um passo à frente, enganando-nos a cada momento.


Assim, o que parecia ser uma releitura nipo-coreana de Ligações Perigosas transforma-se num jogo mais perverso. Quando pensamos compreender as motivações de personagens, uma reviravolta importante mostra que estávamos errados. Quando nos adequamos às novas informações, uma nova mudança revela que estávamos errados de novo, e assim por diante. É como se O Sexto Sentido tivesse não apenas uma grande revelação, mas várias: imagine descobrir que o psiquiatra estava morto desde o começo, mas depois que na verdade estava vivo sim, e depois que nunca existiu etc. A trama rocambolesca pode parecer interessante na primeira mudança, curiosa na segunda vez, mas após tantas releituras, acaba gerando a sensação de aleatoriedade. Tudo pode acontecer, nada é verdadeiro, então por que se importar com qualquer um deles, ou torcer para quem quer que seja?

Em termos de estrutura narrativa, The Handmaiden lembra alguns filmes adolescentes trash dos anos 1990 como Garotas Selvagens, cuja intenção era passar a perna no público sucessivas vezes, associando o prazer sexual ao prazer da nova descoberta. Park Chan-wook apresenta um produto de aparência muito mais refinada, com atuações excelentes e cenas eróticas bem filmadas. Mas a história constitui uma travessura juvenil. Quem estiver disposto a embarcar no jogo, pode tirar proveito da jornada de 2h30 de duração. Quem buscar uma adesão aos personagens e um aprofundamento da trama, corre o risco de ficar frustrado.

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